Franclim Carvalho disse em maio que trabalhar no Campeonato Português era um dos grandes objetivos de sua carreira. Depois, esclareceu que não pensava em deixar o
Botafogo naquele momento e que estava feliz no clube. A diretoria resolveu eliminar qualquer ambiguidade:
demitiu o treinador e o deixou livre para começar a procurar emprego em Portugal.
Pronto, a ironia termina aqui. Não acho que
Franclim Carvalho estivesse fazendo um trabalho tão ruim a ponto de justificar uma demissão em agosto, no meio de uma temporada já bagunçada. Trocar o técnico agora tampouco resolve aquilo que o elenco e a direção não conseguiram resolver.
Franclim teve pouca culpa pelo 6 a 1
Levar
uma derrota por 6 a 1 do
Cienciano é inadmissível. Ainda assim, não vejo
Franclim Carvalho como um dos grandes culpados pelo placar. Ele preparou o time e escolheu a escalação, mas foram os jogadores que entraram em campo sem conseguir competir no primeiro tempo em Cusco.
O treinador usou
Mateo Ponte,
Marçal e
Kadir porque esses jogadores fazem parte do elenco que recebeu. Pode-se discordar das escolhas, principalmente da troca dos dois laterais, mas eram as opções disponíveis para enfrentar um adversário que explorava muitas bolas aéreas.
Franclim Carvalho não buscou três turistas na porta do estádio e entregou camisas minutos antes do jogo.
O plano fracassou, mas o técnico não pode jogar no lugar dos atletas. Para mim, a maior parte da culpa está na atuação dos jogadores e nas limitações do elenco. Se escalar as peças disponíveis é motivo suficiente para demissão, a pergunta deveria ser por que essas são as peças oferecidas ao treinador.
Contra o Vitória, a escalação não foi absurda
Na derrota por 1 a 0 para o
Vitória, também não vi uma escalação desastrosa.
Franclim Carvalho usou uma base normal, com
Vitinho,
Nahuel Ferraresi,
Lucas Monzón e
Alex Telles na defesa;
Cristian Medina,
Danilo e
Álvaro Montoro no meio;
Matheus Martins e
Arthur Cabral no ataque.
É possível discutir uma posição ou outra, como sempre, mas não houve invenção tática que explicasse sozinha a derrota. O
Botafogo perdeu após um pênalti cometido por
Huguinho e teve
atuações individuais muito ruins no Barradão. O técnico responde pelo coletivo, não por cada passe errado ou decisão ruim de quem está em campo.
Foram dois resultados consecutivos ruins, um deles um vexame histórico. Ainda assim, eles não apagam sozinhos o restante do trabalho.
Franclim Carvalho saiu depois de 22 partidas, com dez vitórias, sete empates e cinco derrotas. Não era brilhante, mas também não era a catástrofe que a demissão faz parecer.
Se a nova direção nunca quis Franclim, escolheu a pior hora
Talvez a nova direção nunca tenha comprado de verdade a permanência de
Franclim Carvalho, visto como herança da gestão de
John Textor e da comissão de
Artur Jorge. Não há prova pública dessa motivação. Se a incompatibilidade existia, porém, a condução foi ainda mais estranha.
Quando o
Vasco negociou com o treinador, no fim de junho, a direção teve a oportunidade perfeita para encerrar o vínculo. Em vez disso,
Franclim Carvalho permaneceu no
Botafogo e disse ter recebido confiança dos dirigentes. Se a nova gestão queria romper com a herança de
John Textor, deveria ter feito isso naquele momento. Mantê-lo quando outro clube o queria e demiti-lo semanas depois parece uma decisão à espera de um desastre que servisse como justificativa.
Bellão é Franclim falando português do Brasil
Rodrigo Bellão assumiu interinamente e merece respeito pelo trabalho na base. Já comandou o profissional em três partidas, com duas vitórias e uma derrota, e conhece o clube. Nada disso transforma a troca em uma revolução técnica.
No fim,
Bellão é o
Franclim Carvalho que fala português do Brasil: outro treinador jovem, com pouca experiência no comando de uma equipe principal, promovido em uma emergência e obrigado a encontrar respostas no mesmo elenco. Não acho que vá dar jeito sozinho. Talvez acerte, e tomara que acerte, mas a mudança de idioma não traz soluções automáticas.
Este
Botafogo é um time mediano e, pelo que suas peças entregam, deve terminar o Campeonato Brasileiro no meio da tabela. Pode viver uma boa sequência e ganhar posições, mas não há material para exigir que qualquer treinador transforme o grupo em candidato natural aos primeiros lugares.
A janela do meio do ano foi útil principalmente para substituir os goleirões trapalhões que já haviam custado caro demais. Era uma correção necessária e urgente. No restante, chegaram contratações medianas para um elenco que continuou mediano. Houve reposição, mas não uma mudança de patamar.
Qualquer técnico pode organizar melhor o time, ajustar comportamentos e recuperar jogadores. Não pode transformar contratações de composição em protagonistas nem criar as peças que o elenco não tem. Por isso, talvez fosse mais racional manter
Franclim Carvalho até o fim do ano, cobrar correções e preparar a troca para a nova temporada, com um treinador alinhado ao projeto, reforços adequados e uma pré-temporada completa.
Demitir em agosto oferece a sensação de resposta. Planejar a mudança para janeiro ofereceria uma possibilidade maior de solução. O
Botafogo escolheu a sensação.
Franclim Carvalho, ao menos, recebeu uma ajuda inesperada para perseguir seu objetivo profissional. Queria um dia trabalhar no Campeonato Português e agora ganhou tempo livre para enviar currículo. Resta saber se o
Botafogo, depois de ajudá-lo com o sonho dele, ficou algum centímetro mais perto de realizar os próprios.